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Rubín Morro


Nós outros, os que firmamos o Acordo de Paz, o fizemos porque desde nosso nascimento como organização, a 27 de maio de 1964, iniciamos esta luta por uma saída política à guerra detonada desde o assassinato do caudilho liberal Jorge Eliécer Gaitán, em 9 de abril de 1948.

Nunca nos ouviram e quando buscaram fazê-lo o Estado privilegiava a entrega de armas, a rendição e o cárcere. O processo de paz não iniciou no Caguán, nem em Havana, senão que num longo transvasar da insurgência das FARC-EP por aplainar caminhos de diálogo. Depois de pelo menos seis tentativas, começando pelo gesto unilateral dos guerrilheiros marquetalianos, quando em 1957, numa assembleia, acordaram guardar as armas e iniciar conversações de paz com o governo de então. Se nomeou ao porta-voz e líder campesino Jacobo Prías Alape para intercambiar com o governo, quem fora assassinado três anos depois, a 11 de janeiro de 1960.
Este processo sofreu um dos mais duros golpes e a traição. De todas as maneiras, este propósito seguiu até o ataque a Marquetalia. Como quem diz, foram sete anos de relativa paz. Essa agressão militar a esta zona agrária se fez no marco da uma acusação infame desde o Congresso da República, como que nesta vila de paz o que havia era uma ‘república independente’, quando na realidade eram campesinos e campesinas que fugiam da violência política, quando se assassinava por ser liberal ou conservador. Se refugiaram para salvar suas vidas sobre as lombadas dos Andes.

Em decorrência da anistia de Rojas Pinilla no ano de 1957, se entregaram as guerrilhas liberais e conservadoras, após e como hoje, foram exterminados um a um, por matadores a serviço do governo. Hoje a realidade não é menos dura, é sintomático e sistemático. Estamos ante uma perseguição aberta e sustentada por forças poderosas, com organização, direção política e militar com operatividade em todo o território nacional. Não é pelas rixas de saias e outras condutas que nos atribuem, só para criar matizes midiáticas de opinião. 375 pessoas foram assassinadas em 91 massacres perpetrados no ano de 2020. 307 líderes –homens e mulheres- e defensores de direitos humanos no mesmo ano. 8 jornalistas foram assassinados desde o processo de paz e 251 signatários de paz exterminados desde a firma do Acordo de Paz, sem contar seus familiares e alguns desaparecidos.
São espantosas estas cifras que marcam hoje o horror da violência em Colômbia. E o mais grave é o silêncio cúmplice do Governo, sua insensibilidade e sua incapacidade e inépcia de garantir a ‘vida, honra e os bens dos cidadãos’, como o ordena a constituição política da Colômbia.
Na verdade não existe sossego para signatário algum da paz. Estar fugindo dos pistoleiros diariamente não foi o que nos prometeram. Fazer uma família para deixar órfãos, viúvas e familiares não foi o que firmamos.
Nenhum guerrilheiro ou nenhuma guerrilheira deixa as armas para morrer [email protected] Foi precisamente para não morrer violentamente, construir pátria e construir a paz. Nos disse a institucionalidade: deixem as armas e os esperamos com os braços abertos. O que não nos imaginávamos era que em cada mão havia também uma pistola. Há muitos amantes da paz, porém o poder parece estar à margem, assim cospe no cumprimento do Acordo de Paz. Avançamos, porém não como deveria.

Claríssimo que não estamos já frente a uma nova guerra, senão que a um monstro de mil cabeças que o Estado deixou crescer, não retomando as áreas deixadas pela extinta insurgência, onde se aninharam grupos armados de todas as espécies, frente a uma população vulnerável que espera verdadeiras garantias de segurança integrais contempladas no Acordo de Paz.

Firmamos um Acordo de Paz e o estamos cumprindo apesar dos descumprimentos e das adversidades. Nunca nos imaginamos que este processo seria uma ‘pera adocicada’, porém esperávamos, sim, da institucionalidade vontade política, coerência, seriedade com sua palavra empenhada frente à sociedade colombiana e à comunidade internacional.

O Acordo de Paz é o acontecimento político mais importante nos últimos 100 anos. Tem sido a oportunidade para que nossa nação transite por caminhos de esperança, paz e vida digna.

Construir uma nação reconciliada será muito complexo em Colômbia posto que o próprio estabelecimento empunha [as bandeiras] das vinganças e dos ódios. O perdão, a convivência e a construção da paz estável e duradoura têm seus alicerces no humanismo e na humildade, e enquanto as retaliações esgrimam seus ódios nos levará muitíssimos anos. É a sociedade em seu conjunto que deve impulsionar a luta pela vida e pela paz.

Seguiremos resistindo aos senhores da guerra que a paz os asfixia. Jamais nos intimidarão nem seremos objeto de chantagens que pretendam nos empurrar novamente para a guerra. Estamos com o processo de paz e não retrocederemos na decisão tomada: alcançar a reconciliação da família colombiana.

Exigimos respeito por nossas vidas e pela de todos os colombianos, sobretudo para aqueles que reclamam lutar pelos DDHH, pela defesa da vida e pela natureza. É inconcebível que lutar pela paz nos custe a vida.
É terrível, vão três dias do ano novo e já foram dois assassinatos, sem incluir uma irmã de 17 aninhos vilmente assassinada também.