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Crônicas de tempos duros I

Apresentação

Se no imaginário das FARC existe um território legendário, é a área geral de Marquetalia, no sul do Tolima. Ali fundaram Jacobo Prías Alape, Manuel Marulanda Vélez e três dezenas mais de ex-guerrilheiros comunistas a colônia agrícola que dez anos mais tarde, no governo de Guillermo León Valencia, seria bombardeada e ocupada pelo Exército Nacional da Colômbia.
A região sul de Gaitania, inspeção pertencente ao município de Planadas, abrigada entre as abruptas montanhas que conduzem à nevada do Huila, é confluência de quatro estados colombianos: Tolima, Huila, Cauca e Valle. Terrenos difíceis, selváticos e de páramo seriam o cenário histórico do nascimento das FARC já há meio século. E também o território no qual o comandante Alfonso Cano passou seus últimos dez anos de vida guerreira.
As mentes perversas da inteligência militar e a grande imprensa reacionária colombiano poderão ter cometido todo tipo de infâmias para denegrir a imagem do dirigente político e revolucionário que o governo de Juan Manuel Santos conseguiu traiçoeiramente assassinar a 4 de novembro de 2011 no Cauca. Porém jamais poderão explicar que um jovem profissional de família abastada e brilhante futuro na capital do país abandonasse tudo para assumir uma vida repleta de perigos, abalos e privações sempre crescentes, animado pelo sonho de uma Colômbia sem crimes nem perseguições políticas, digna, em desenvolvimento e com justiça social.
Revolucionários como Alfonso Cano sempre serão uma bofetada no rosto para os pregadores das maravilhas da sociedade capitalista porque lhes provam que há coisas que jamais poderão comprar com seu dinheiro: a honestidade, a decência, a lealdade e o decoro; porque pertencem à categoria dos idealistas, dos quixotes, os que estão dispostos a entregar a vida pela causa de seus povos; porque deixam de pensar em si mesmos, em seu pequeno mundo, para empenhar suas mentes pelo bem dos demais, dos oprimidos e das vítimas, da humanidade inteira e do planeta.
Nas duras condições da Cordilheira Central, a mais alta e íngreme do país, as temperaturas são muito baixas. Mais ainda no meio da selva. Chove com frequência, a bruma cobre constantemente os espaços, se formam lamaçais com facilidade, as quebradas e os rios costumam baixar torrenciais, são difíceis de cruzar. As marchas e os deslocamentos implicam, sem exceção, em exigentes esforços costa acima e dolorosas descidas nos vales. Tudo isso se agrava nas operações de guerra. Aviões soltando bombas, helicópteros disparando rajadas, tropas desembarcando, inumeráveis patrulhas do Exército ansiosas de derramar sangue humano.
Viver assim chega ao heroísmo. Tanto que nem as tropas de contraguerrilhas, treinadas e preparadas psicologicamente para as condições mais difíceis, nem as forças especiais concebidas para terem acesso aos lugares mais impenetráveis suportam mais de três meses uma campanha contínua. Se faz necessário relevá-las ante o risco que envolve a perda de seu moral de combate.
Generais, coronéis e comandantes de batalhões no máximo se aproximam em aeronaves, a seguir desde as alturas o desenvolvimento das operações em terra. Não suportariam uma semana embaixo.
Os guerrilheiros, no entanto, mulheres e homens, jovens ou adultos, fazem desse meio implacável seu ambiente natural. Ali vivem em comunidade, numa fraternidade incompreensível para seus perseguidores, desde os novos incorporados às fileiras até os mais importantes mandos da organização. É o estilo de vida que imprimiram às FARC homens como Manuel Marulanda Vélez e Jacobo Arenas e no qual o camarada Alfonso Cano soube se mover em todo momento com destacada abnegação e moral inquebrantável.
Animado, ademais, por um otimismo transbordante. Quem o tenha conhecido e com ele lidado pode dar fé de que sempre se sentiu feliz, plenamente satisfeito do papel que lhe correspondia desempenhar na vida. Seu elevado conceito do que representavam no país, no continente e no mundo as posições ideológicas e políticas, a persistência, os saltos adiante, a resistência e a combatividade das FARC-EP constituía seu melhor estímulo para contribuir com o máximo de si com a organização em cuja direção participava desde há três décadas.
Nesses penhascos frios e chuvosos dos sopés da nevada do Huila, nas margens de um rio chamado Guayabo, num acampamento situado num buraco onde o sol quase nem entrava, em março de 2008 se teve conhecimento das maiores tragédias sofridas em série pelas FARC em sua história. A morte do camarada Raúl Reyes e o praticamente aniquilamento de sua unidade em Sucumbíos, o horroroso crime de Iván Ríos em Caldas, a surpreendente e inesperada morte do camarada Manuel.
Três membros menos do Secretariado Nacional das FARC-EP, incluído seu chefe máximo e fundador. Uma repentina e dolorosa situação alheia a qualquer cálculo ou previsão.
Sua mensagem aos demais integrantes do Secretariado Nacional foi significativa:
Só a solidez nos princípios e a temperança que nos inculcaram os camaradas Manuel e Jacobo, aos quais chegamos muito depois que eles à luta revolucionária, nos permitirão superar a dura prova que hoje enfrentamos com o desaparecimento físico de nosso comandante, guia e condutor quando ainda enxugávamos nossas lágrimas pelos camaradas Raúl e Iván Ríos.
Envio meu abraço solidário a Sandra, a toda a guerrilheirada fariana, aos revolucionários e ao povo colombiano…
Cinco dias depois da morte do camarada Manuel, Alfonso Cano, designado por unanimidade como seu sucessor, volta e lhes escrever:
Lhes agradeço sua confiança e sua generosidade. Desde minha nova responsabilidade continuarei me esforçando ao máximo para que a proposta revolucionária das FARC-EP triunfe, sempre no espírito que nossos forjadores, guias e mestres Manuel e Jacobo nos inculcaram, reiterando nosso compromisso e juramento de lutar até a vitória ou até a morte pelo socialismo.
Quem poderia hoje arguir que Alfonso não foi fiel a seu compromisso até o final? Assim era ele, assim pensava ele, assim devemos ser todos os revolucionários.
Nas partes seguintes daremos a conhecer episódios da vida e do pensamento de Alfonso Cano em seus últimos anos, como uma homenagem a sua condição de revolucionário puro, integral, imensamente capaz e exemplar. Temos a certeza de que foram tais condições as que moveram o imperialismo e a oligarquia colombiana a lhe tirarem a vida como requisito prévio a um encontro exploratório de possibilidades de paz com as FARC. Sem ele, pensavam, seria fácil nos rendermos numa mesa de conversações. Essa lógica absurda de nossos adversários tornou impossível a paz em nosso país. Alfonso tinha isso muito claro e nós, graças a ele, também.
Continuará…

Tradução > Joaquim Lisboa Neto