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DELEGADO DA FARC NO CONSELHO NACIONAL DE REINCORPORAÇÃO

Pastor Alape foi membro das FARC-EP e negociador da guerrilha na mesa de conversações de Havana. Como delegado do Conselho Nacional de Reincorporação visitou Euskal Herria através de Hegoa para expor os desafios que enfrentam.

«La Habana significou sonhar a Colômbia numa nova realidade»

AINARA LERTXUNDI|BILBO

Ex-comandante, membro do Secretariado das FARC-EP e negociador plenipotenciário em Havana, Pastor Alape é atualmente delegado da Força Alternativa Revolucionária do Comum [FARC] no Conselho Nacional de Reincorporação, órgão que gestiona o regresso dos ex-guerrilheiros à vida civil. Em entrevista com GARA na sede do instituto Hegoa em Bilbo, Alape assegura que «o acordo de paz não fracassou», apesar do regresso de destacados ex-dirigentes da ex-guerrilha à luta armada como Iván Márquez e Jesús Santrich, e aos descumprimentos sistemáticos do Governo uribista de Iván Duque.

Num momento delicado, a FARC celebrará no abril próximo sua assembleia nacional. Um dos desafios, afirma, é «manter a unidade e estruturar um partido que responda às exigências do século XXI. Devemos estabelecer uma política que nos permita desmontar o estigma que carregamos e isso implica mudar o nome. Não podemos seguir nos chamando FARC».

Qual é a radiografia dos grupos que se desvincularam do acordo de Havana?

Dentro da própria dinâmica que caracteriza a estes processos, ex-companheiros nossos ficaram fora do processo por diversas circunstâncias, ainda que, fundamentalmente, pela desconfiança no Estado. O primeiro grupo foi liderado por Gentil Duarte. Esses ex-companheiros decidiram que não iam se arriscar a morrer no intento de construir a paz. Houve um segundo momento em que, devido aos descumprimentos e à insegurança jurídica, são capturados Jesús Santrich e um sobrinho de Iván Márquez, quem resultou que tinha vínculos com as autoridades norte-americanas. Então, Iván e outros ex-companheiros optaram pelo levantamento armado. Porém esses dois setores não chegam nem a 20% do universo de pessoas que seguimos na luta árdua para implementar o acordo de paz e aprofundar a democracia. Nos reafirmamos em que o acordo de paz não fracassou. Despertou uma nova ação da cidadania colombiana que veio se mobilizando em diferentes momentos, reafirmando a necessidade de ampliar as ações para que o Estado cumpra com o acordado e que os governos cumpram com os compromissos de Estado.

Que impacto teve em vocês o anúncio do regresso à luta armada de quem fora o chefe negociador em Havana, Iván Márquez, e de outros importantes quadros?

O impacto político foi muito complexo dado que eles fazem sua declaração numa conjuntura eleitoral que gerou muita satisfação ao partido do governo; permitiu maiores argumentos a propósito de que as FARC não estavam cumprindo. Isso nos pôs numas condições políticas de desvantagem. É uma decisão que em seu momento favoreceu à campanha da direita em Colômbia.

Recentemente, transcendeu a carta de Alexandra Nariño –uma das delegadas da guerrilha na mesa de Havana- na qual renuncia ao partido FARC por coerência. Como avalia esta renúncia e a de outros quadros públicos?

Todo processo de transição tem suas próprias dinâmicas. Nas organizações, mais ainda quando se amplia o cenário da horizontalidade e da democracia, e se desmontam as dinâmicas da verticalidade, é lógico que se apresentem diversas situações tanto de uns que aderem a essa iniciativa política como daqueles que se retiram. Respeitamos a decisão da companheira, teremos que fazer ajustes, toda decisão há que abordá-la com visão crítica e, sobretudo, autocrítica desde as direções.

Você está à frente do Conselho Nacional de Reincorporação por parte da FARC. Em que ponto está a reincorporação dos ex-guerrilheiros?

Estamos numa situação muito complexa devido aos descumprimentos do Governo, porém insistimos em que a reincorporação econômica não pode ser vista isolada do núcleo central do acordo de paz que é a reincorporação política. Se não se garante esta, se não há garantias para isso, se não há garantias para a vida dos signatários do acordo de paz, o processo se complica. Reclamamos do Estado garantias para a vida e planos específicos que obriguem à implementação do acordado quanto a medidas de segurança. Estamos enfrentando um plano sistemático de extermínio dos signatários e promotores da paz em Colômbia. Estão assassinando aos subscritores do acordo, aos líderes da substituição dos cultivos de uso ilícito, aos promotores do enfoque de gênero, diferenciado e étnico, aos reclamantes de terra e aos impulsionadores da reforma rural e integral. Nesse contexto, responsabilizamos ao Estado e ao Governo atuais, que mantêm uma linha de promoção da violação, estigmatização e polarização em Colômbia.

Quem é ou quem são os que estão por trás destes ataques?

São atores armados que respondem a estratégias estabelecidas nos territórios a partir das próprias economias da ilegalidade que operam nestes lugares e que favorecem a setores econômicos e políticos, e a mega projetos extrativistas que se dão nessas regiões, como em Putumayo, Catatumbo, no Andén do Pacífico, baixo Cauca e todo o norte antioquenho. O fator comum é que há interesses de multinacionais, extrativistas e mega projetos.

O fato de que o uribismo esteja de novo governando piorou este fenômeno?

Os índices de criminalidade dispararam com este governo. O de Iván Duque é um governo que polariza e promove o ódio em todos os cenários: no Parlamento, nos ministérios… e não executa nenhuma ação que implemente as definições que ficaram no acordo para poder enfrentar as ameaças de violência. Por exemplo, ainda não implementaram o Pacto Político Nacional, que era o compromisso de todas as forças políticas e econômicas do país para dizer não à violência. Este partido de governo se nutre da violência. Essa é sua característica. Por isso, o presidente da FARC, Rodrigo Londoño, Timo, respondeu à senadora pelo Centro Democrático –partido de Duque- María Fernanda Cabal por seus impropérios contra Cuba e os estudantes, sejam ex-combatentes ou militares, que estão com bolsas no país caribenho para estudar Medicina.

Vê preparada a sociedade colombiana para acolher aos ex-combatentes?

Hoje temos uma sociedade colombiana mobilizada pelos acordos de paz. São vários momentos históricos nos quais a sociedade se mobilizou a favor da paz. Primeiro foi nas eleições presidenciais, nas quais cerca de dez milhões de cidadãos votaram por uma candidatura de mudança. Depois, na consulta anticorrupção mais de 13 milhões disseram «isto tem que ser mudado»; é o momento da paz, da esperança. Nas eleições regionais, a sociedade praticamente derrotou ao partido do governo naquelas regiões onde se considera que tem maior aceitação. O prefeito de Medellín foi eleito por forças independentes. Isso mostra a um país com uma cidadania mais mobilizada. As manifestações de 21 de novembro mostraram um país que se apega à esperança e que não quer pôr o olhar no passado.

Que importância simbólica têm gestos como a entrega a 7 de fevereiro à Jurisdição Especial para a Paz de um segundo informe sobre o atentado com carro-bomba contra o Clube El Nogal de Bogotá no qual há 17 anos morreram 36 pessoas? Rodrigo Londoño [FARC], Bertha Lucía Fries, representante das Autodefesas Unidas da Colômbia acorreram juntos ao ato numa mostra de reconciliação.

Com este tipo de ato queremos reiterar nosso compromisso de reconhecer nossas ações, na reconciliação, na reparação às vítimas e, sobretudo, de dizer ao país que na guerra éramos adversários por causa das condições políticas, não no [sentido] pessoal. No pessoal somos cidadãos que cabemos num mesmo território, num mesmo país e podemos nos encontrar em muitos anseios. Por isso estivemos juntos atores que nos enfrentamos. Queremos dizer ao país que nós, que lutamos à morte entre nós outros, podemos nos encontrar. Cidadãos que estivemos na guerra estamos fazendo ações permanentes para dizer ao país que necessitamos nos reencontrar para restabelecer uma cultura de paz e crescer como nação.

A mesa de Havana coincidiu durante um tempo com o processo aberto com o ELN, na atualidade congelado. Se chegou a falar de duas mesas, um mesmo processo. Acaba de finalizar a «paralisação armada» decretada pelo ELN entre 14 e 17 de fevereiro. Vê ainda possível um diálogo com esta guerrilha?

Confiamos ferrenhamente numa paz completa. Estamos nos movendo em todos os níveis para que se abra com urgência o diálogo com o ELN. Necessitamos estabelecer uma ação política do Governo dirigida ao acolhimento de outras estruturas armadas porque está demonstrado que em Colômbia a saída violenta, as políticas de segurança baseadas na perseguição militar, não são exitosas e a única coisa que permitem é que se perpetuem setores do poder que se beneficiam da violência. Devemos romper esse ciclo de nossa história.

Em abril, a FARC celebrará sua assembleia nacional. Que desafios enfrenta?

O primeiro, manter a unidade do partido e entender a dinâmica do debate interno e o funcionamento das forças políticas no século XXI. Devemos estruturar um partido que responda às exigências do século XXI e, sobretudo, a uma sociedade jovem que hoje é muito mais ativa. O segundo, entender que o partido não pode ser de ex-guerrilheiros, senão que um partido de cidadãos e cidadãs que aspiram a ser governo. O terceiro, entender que se requer respostas inovadoras que aprofundem a democracia, que nos tirem do nível de exclusões e, o quarto, poder estabelecer uma política que nos permita desmontar o estigma que carregamos e isso implica mudar o nome. Não podemos continuar nos chamando FARC.

Após uma vida nas FARC-EP, seu papel como negociador e agora na construção da paz, que balanço faz?

Para mim Havana significou um momento de sonhar a Colômbia numa nova realidade. A metáfora de Havana era que podíamos construir um continente de paz.

Tradução > Joaquim Lisboa Neto